Caio.. de boca!

* o título e a foto pertecem ao blog de WendyFreitas

(abre aspas; prefácio do livro ‘Inventário de um Escritor Irremediável’, de Jeanne Callegari)

” O perfil de Caio Fernando Abreu escrito por Jeanne Callegari pode ser lido como um romance. Um delicado romance que, cheio de paixão mas também de pudor, pisa devagar sobre a matéria ardente. A estratégia narrativa de Jeanne combina com a estratégia  existencial de Caio, que também viveu como se sua vida não passasse de um romance, um desses romances tensos, cheios de tristeza e de revolta, de atração pelo risco mas também fascínio pela beleza, em cujas páginas avançamos com o coração na mão.

Jeanne começa imitando os romances clássicos. Ela parte dos extratos remotos, mais decisivos da infância, das primeiras descobertas e dos primeiros sustos, para acompanhar, à distância, a formação difícil do escritor. “Desde de muito pequeno, o menino Caio desmostrou uma inclinação pela arte”, diz. Esta tendência logo se revela uma disposição para fermentação interior, movimento que o arrastou, desde cedo, para temas ameaçadores como o erotismo, a fraqueza e o risco de morte.

Nem mesmo a prática do jornalismo, que se apóia no concreto e na objetividade, lhe serviu para abrandar as turbulências íntimas. Em um conto como Pequeno Monstro, de Os dragões não conhecem o paraíso, nos mostra Jeanne, Caio já rascunha, através de um jovem alter ego e por vias tortas, um terrível retrato de si. “Pernas e braços demais, pêlos nos lugares errados, uma voz que desafinava igual a um pato, eu queria me esconder de todos”.  Viver é não só suportar, mas sobretudo lutrar contra o que se é.

Talvez se possa pensar que, com sua alma efervescente, Caio Fernando Abreu tenha sido um eterno adolescente – e o livro de Jeanne, por vezes, nos enche de argumentos a favor dessa ideia. Mas ela nos mostra também que, se o jovem rebelde persistia, grudado nele, como um duplo, havia logo um poeta (pela postura, e não porque escrevesse versos, pois, se os escrevia, nunca publicou). Um homem que nunca desconheceu o peso do caminho que lhe coube atravessar.

Mesmo amparando-se no recurso mais didático da ordem cronológica, nem assim a autora consegue organizar e domar a atmosfera de inconstância e de desamparo que cercou a vida do escritor. períodos fundamentis – como aquele em que, fugido da perseguição da ditadura militar, ele se escondeu no sítio da escritora Hilda Hilst, na periferia de Campinas – ajudam a ficar traços mais firmes. Em sua chácara, Hilda seguia a ideia do escritor grego Nikos Kazantzakis, segundo quem, para entender a sociedade, é preciso primeiro dela se afastar. Lição que o jovem Caio tratou logo não só de imitar, mas de incorporar como fundamento de sua existência, e que o ajudou a delimitar, de vez, a figura de um sujeito à margem, de um desviante, um rebelde. Pode-se dizer que foi na chácara de Hilda, escoltado por ela – como uma parteira que de um corpo arrancasse não outro corpo, mas um espírito –  que o escritor adulto veio a nascer.

Às vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo“, Caio escreve em uma carta aos pais, detada do final dos anos 1960. Quandom no início da década de 1970, vai para a Europa, já é um homem que deseja abraçar o mundo, perder-se na esperança de, enfim, se achar. Leva então uma existência precária, faz bicos, lava pratos, sobrevive como pode, mas avança, na Suécia, na Holanda, na Inglaterra. A homossexualidade se abre, rompendo de vez os limites de uma vida burguesa.

Mas, nos mostra Jeanne, quanto mais Caio se liberta e expande seus horizontes, mais afunda na dor. “Escrevo por uma espécie de incompatibilidade de gênios com a vida, escrevo para reinventar, escrevo para organizar o caos, para não enlouquecer de impotência, para re-fazer“, ele mesmo descreve em uma crônica da época. Dor e escrita se conectam de modo fatal, e é nesse nó que Jeanne puxa o fio de “um escritor irremediável”. E aqui se deve entender o irremediável em dois sentindos: como uma condenação (algo que não tem remédio), e como um destino (algo em que ele se lança para a vida e com grande vigor).

De volta para São Paulo, Jeanne reencontra Caio, aos 30 anos, “de calça de couro, jaqueta, gestos finos, elegantes”, encostado em um carro. “O ser todo exalava algo de sexual, e de solitáio também”, ela resume, em uma descrição que, mesmo rápida, fisga quase toda a alma de Caio Fernando Abreu. Um sujeito que, apesar da sensibilidade extrema e da volúpia de viver sempre frustrada, nunca desiste de recomeçar.  O medo da loucura, do desastre, do fracasso, se agiganta. A relação de amor e tensão que tem com a poeta Ana Cristina Cesar – que, depois de muita luta interior, termina por cometer suicídio – é uma síntese desses sentimentos.

É também o momento em que, em O triângulo das águas, mais especificamente na novela Pela noite, pela primeira vez, Caio menciona o terror da aids – que naquela época, de ignorância e preconceito, ainda era chamada, muitas vezes, de “câncer gay”. Mesmo cheio de terrores, Caio avança. Dedica-se cada vez mais a ler poesia – sobretudo Adélia Prado, Fernando Pessoa e Mário Quintana. Sua escrita está cada vez mais empregnada de lirismo, um lirismo seco e doloroso, e também de um misticismo vago, que se acentua na atitude pessoal – que cultiva com esmero – de um bruxo.

O anjo negro chega ao extremo até que ele mesmo, depois de uma doença longa e estranha, recebe a notícia de que é soro-positivo. Fato que comunica, de modo frontal, em uma série de crônicas publicadas no jornal O Estado de S. Paulo. É o momento da virada – em que o positivo que indica a doença, negativo, portanto, é convertido por Caio em algo positivo mesmo. A vida lhe abre uma nova face. Fraco, mas cheio de coragem, ele volta a morar com os pais, no sul, e se dedica a rever seus livros, procurando extrair, dos mergulhos negativos, sentidos novos e vitais.

A morte o pega quando vivia como um romântico jardineiro, quieto entre suas flores domésticas, apegado ao prazer de cuidar dos próprios espinhos. É nesse andar das coisas pequenas que Jeanne o persegue até o fim. Seu livro tem a objetividade dos relatórios científicos, mas também o encantamente das cartas de amor e, ainda, a reserva temerosa das grandes confissões. Jeanne se contém sempre, o mais que pode, porque sabe que se aventurar na vida e na obra de Caio Fernando Abreu guarda sempre um grande risco, é megulhar no veneno terna da imperfeição. “

Um sujeito que, apesar da sensibilidade extrema e da volúpia de viver sempre frustrada, nunca desiste de recomeçar.
– José Castello

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Dois amantes desafiando a eternidade.
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