É Lis, ELIS!

Elis cantou de tudo, do samba ao rock, da bossa ao bolero e ao baião, em cada um desses gêneros, e até mesmo no sertanejo, com ” Romaria”, ela poderia ser considerada a melhor do Brasil naquele estilo. Com ” Velha roupa colorida ” produziu uma das melhores gravações da história do rock brasileiro. Com ” Casa no campo” cantou como ninguém o ” rock rural “, uma espécie de pré-sertanejo inspirado no folk americano, na base de violões acústicos e com letras de temática hippie. Foram interpretações que serviram de referência e padrão de qualidade em cada um desses gêneros tão diversos entre si, que exigem dos interpretes não só qualidade como grande versatilidade. Muitas cantaram Roberto Carlos muito bem, continuam cantando, mas as interpretações de Elis do repertório do Rei, como a raivosa “Se você pensa” e a desesperada “As curvas da estrada de Santos”, tornaram-se antológicas, ampliando e explodindo as interpretações contidas de Roberto. Elis grita, chora, xinga, se entrega a suas emoções, é over sim, é over mas é lindo. Uma das últimas – e mais bonitas e emocionadas – gravações de Elis é de um bolero clássico, pungente, de Armando Manzanero, ” Me deixas louca “, na inspirada versão em português de Paulo Coelho, sim, ele mesmo, o ” mago ” dos best-sellers, uma de suas últimas letras antes dos livros. Antes já havia criado o “Bolero de Satã”, de Guinga e Aldir Blanc, que interpretou como se fosse Ângela Maria junto de seu ídolo Cauby Peixoto, em outra gravação histórica. Quanto ao samba, bem, Elis era também uma rainha, uma sambista nata, apesar de nascida e formada no Rio Grande do Sul, de nenhuma tradição no gênero. Talvez a maior parte de seus sucessos populares sejam sambas, como o ” Qua-quará-quá-quá” e ” Lapinha “, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, como ” Madalena “, de Ivan Lins de Ronaldo Monteiro de Souza, um samba mais soul, ou como o samba moderno de João Bosco e Aldir Blanc, ” O bêbado e a equilibrista “. Também clássicas são suas interpretações “cool” de dois grandes sambistas históricos, Nelson Cavaquinho, com ” Folhas secas “, e Pedro Caetano, com ” É com esse que eu vou “, sambas dos anos 40 e 50 que Elis, ao contrario de seu estilo exuberante, reinventou gilbertianamente, com uma mínimo de volume e um máximo de suingue e precisão. Foi o tardio encontro de Elis com João Gilberto, de quem nunca fora grande fã, já que a grande influencia na sua formação de cantora fora Ângela Maria, da voz poderosa, dos agudos vibrantes, das interpretações ultra-dramáticas – tudo o oposto de João Gilberto que, na mesma época, impunha seu estilo minimalista como sinônimo de bom gosto e modernidade. As grandes vozes, depois dele, passaram a ser consideradas ” antigas “, para Elis não, ela não era baiana e nem de Copacabana, era de uma família pobre e fora criada na periferia de Porto Alegre, um lugar frio e feio, sem o menor suigue. Elis cresceu ouvindo as grandes cantoras do final da era do rádio e foi ela mesma uma cantora de transição do rádio para a televisão. Começou em programas de calouros infantis e se consagrou com programas de auditório como “O fino da bossa”, que apresentava junto com Jair Rodrigues, na verdade ainda um programa de rádio, só que com imagens. Elis era de uma escola de canto em que a grande voz, e mostrar que a possuía e dominava, eram obrigatórios. E ela seguia à risca. Só quando veio para o Rio e entrou em contato com jovens jazzistas e bossanovistas é que começou a modernizar o seu estilo, sofisticando seu fraseado, improvisando em scats como as grandes jazzistas. Sempre exuberante ( para uns ) e exagerada ( para outros ), Elis transformou seu temperamento natural em estilo com a ajuda do bailarino e cantor americano Lennie Dale, que a encorajou a soltar a voz sem limites e usar ao máximo o corpo. Para uma música que tinha sido criada e desenvolvida com um banquinho e um violão, e vozes pequenas e suaves, era uma grande mudança. Elis impôs um novo estilo, em tudo oposto à estética bossanovista, e se transformou na melhor novidade do momento: 1964, golpe militar, início da Jovem Guarda. Nada é por acaso… De admiradora e imitadora de cantoras bregas, Elis em pouco tempo transformou-se numa sofisticada jazzista, que deixou Quincy Jones de boca aberta quando cantou com ele numa festa depois do Festival da Canção de 1967. Sambista, gravou seu primeiro disco “adulto “, com musicas de Dorival Caymmi e Ary Barroso e dos novos Edu Lobo e Marcos Valle. O disco chamou-se “Samba, eu canto assim! ” e curiosamente, mas não tanto em se tratando de Elis, era totalmente jazzístico, com arranjos de big band arrojados e suingados de Paulo Moura, Elis improvisando e fazendo scats, modificando completamente a linha melódica de clássicos como o ” João Valentão ” de Caymmi, entortando notas e abusando dos vibratos e dos efeitos, fraseando como uma negra americana. Foi a nossa maior jazzista, sem dúvida. Basta ouvir esse disco de ” samba “. No início Elis detestava bossa nova, achava música de quem não sabia cantar, só no início dos anos 70, quando gravou um histórico álbum com Tom Jobim, passou a ser saudada também como uma grande intérprete, cool e intimista, levemente jazzística, brasileiríssima, de bossa nova. Elis era muito inteligente, aprendia rápido, era de uma musicalidade espantosa, e assim, em pouco tempo em contato com a fina flor dos músicos e compositores do momento, desenvolveu rapidamente um rigoroso gosto musical, onde tentava harmonizar a sua formação popular com a sofisticação que aprendera nos bares e nos shows das noites cariocas e paulistas. Até mesmo valsas Elis cantou divinamente, bastando lembrar as inesquecíveis “Fascinação” e “Boa noite, amor”, que ela elevou à condição de clássicos populares. Mas a rainha da MPB gostava de novidades, não tinha medo de arriscar, adorava lançar novos compositores, fossem eles sambistas ou emepebistas, sertanejos ou jazzistas. Como lançou Tim Maia, e com ele, o funk-soul carioca, hoje um gênero genuinamente brasileiro, completamente integrado à grande MPB. Na musica que gravou com Tim, metade era soul em inglês, metade era bossa nova em português, e nas duas linguagens Elis e Tim travaram um dos mais arrebatadores duelos na história da nossa música. Elis era tão musical que ficava completamente à vontade com canções em inglês ou francês, que interpretava à perfeição, com um mínimo de sotaque capaz apenas de dar-lhe charme, como nos discos gravados em Londres com Toots Thielmans e em Paris com Pierre Barrouh. Só que Elis não falava nem uma coisa nem outra, nadica de nada, mas seu ouvido prodigioso a levava a imitar com perfeição as sonoridades que aprendia. Elis, cantora internacional. Em todos os ritmos ela foi rainha, lançou um repertorio extraordinário e agora, aos 60 anos, está cantando cada vez melhor.

-Nelson Motta

Anúncios

About manugraff

Dois amantes desafiando a eternidade.
Esta entrada foi publicada em Sem categoria e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s